DESAFIOS DA IA

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DESAFIA A HUMANIDADE
Dos anos 1950 até os dias atuais
Por Caio Gabriel e Letícia Costa
A inteligência artificial (IA) pode ter diversas definições: para Eugene Charniak e Drew McDermott, autores do livro “Introdução à Inteligência Artificial”, a IA é o estudo das faculdades mentais através da utilização de modelos computacionais; para Silvio Lago, é a área da computação que estuda como simular comportamento inteligente usando métodos computacionais. Conversamos com Nelson Sandes, doutor em Informática Aplicada pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e, atualmente, professor e coordenador do curso de Ciência da Computação na Universidade Federal do Cariri (UFCA). “Do ponto de vista mais pragmático, eu aceitaria uma definição de que inteligência artificial seria qualquer dispositivo que possa resolver tarefas que, por enquanto, são desempenhadas apenas por humanos. Quando uma máquina consegue desenvolver essa expertise, talvez ela possa ser considerada inteligente. Porque é muito difícil saber o que é inteligente e o que não é”, explica o docente.
Na prática, a ideia é que IA possibilite o aprendizado de máquinas para executar tarefas como se fossem seres humanos. Já é possível perceber diversas maneiras em que a tecnologia está presente no nosso dia a dia. Imagine que há alguns anos, com base nos seus aluguéis anteriores, o atendente da locadora te indicaria filmes parecidos com base no seu histórico. Hoje, é exatamente isso que grandes plataformas de streaming fazem, como a Netflix. O Spotify pode criar playlists com artistas que você nunca ouviu, mas que combinam com o que você costuma escutar. O Google organiza suas fotos automaticamente por data, pessoas e lugares. Quanto mais você usa esses serviços, mais assertivos e atrativos eles ficam.
“É difícil definir inteligência, mais difícil é definir inteligência artificial."
Nelson Sandes, professor de Ciências da Computação

As inteligências artificiais mais conhecidas são as generativas, como ChatGPT, Bard e Copilot, utilizadas para a criação de novos conteúdos como texto, imagens, música, áudio e vídeos. A partir de comandos do usuário, estas plataformas usam o conhecimento prévio do assunto armazenado em seu banco de dados. “Temos os algoritmos clássicos de inteligência artificial, que é aprendizado supervisionado, não supervisionado, aprendizado por reforço. Com essas tecnologias, vêm surgindo as IAs generativas, com as quais a gente consegue conversar. Essas IAs são capazes de gerar texto, gerar código”, explica Nelson Sandes.
A concepção básica de inteligência artificial surgiu na década de 1950, quando Alan Turing propôs o que veio a ser conhecido como “Teste de Turing”, cujo propósito é avaliar a capacidade de um computador de exibir comportamento inteligente equivalente ao de um ser humano. Desde então, as inteligências artificiais deram passos importantes. A seguir, você pode acompanhar uma linha do tempo com etapas do desenvolvimento da IA, basta clicar na seta:
Conforme a inteligência artificial se desenvolve, com todos os acontecimentos citados na linha do tempo, chegamos à fase em que a sua utilização é direcionada para a produtividade, auxiliando em tarefas específicas do mercado de trabalho e em pesquisas para diversas áreas do conhecimento. O professor Nelson Sandes, em uma perspectiva mais otimista, afirma que o cenário aponta para o aumento da produtividade de algumas áreas de trabalho, e não da substituição do trabalhador e, para que a sociedade esteja preparada para a inteligência artificial, depende de nossa maturidade para criar leis que sejam suficientes para conviver com essa tecnologia.
“Já existe na União Europeia uma legislação sobre a IA. Aqui a gente tem a lei de proteção aos dados, mas com certeza vão surgir [outras leis] à medida que as tecnologias vão surgindo”, afirma Nelson
Além do professor, Hanna Menezes, técnica de laboratório de Jornalismo Multimídia da UFCA e doutoranda em Ciências da Computação na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), comenta sobre a preocupação que a classe trabalhadora tem em perder seus empregos para a inteligência artificial, e a manipulação do marketing em relação a isso.

“O que mais me assusta é a forma como essas coisas são vendidas, é o que está por trás da inteligência e o marketing que manipula as pessoas, a crença de que vai tirar o emprego, que vai ser melhor do que a gente. Enfim, é a forma como esses produtos hoje estão sendo jogados no mercado, vendidos como se fosse a solução de todos os nossos problemas.”
Hanna Menezes, técnica de laboratório do curso de Jornalismo da UFCA e doutoranda em Ciências da Computação na UFCG
Segundo Hanna, a IA é uma tecnologia que pode ser utilizada de forma positiva, mas é preciso ter cuidado e saber utilizá-la, porque, como qualquer ferramenta, tem vantagens e desvantagens. Se mal utilizada, pode ser bastante nociva para a sociedade: “O que a gente vê que está tendo muito investimento e desenvolvimento, é o processamento da linguagem natural, que é o que a gente utiliza nessas IAs de conversação, em que a gente pergunta as coisas e elas respondem. Outra grande área de desenvolvimento é a visão computacional e o aprendizado de máquinas em si”, afirma.
A IA entre utopias e distopias
Por Douglas Aureliano e Gean Rodrigues
Antes que as inteligências artificiais ocupassem todos os holofotes, houve, e ainda há, tecnologias que realizam atividades que antes eram realizadas estritamente por seres humanos. Estes recursos facilitam e, principalmente, ajudam a realizar atividades em um curto período de tempo. O que antes era um serviço muito demorado e que demandava bastante atenção, se tornou algo que passou a ser resolvido em poucos segundos. No quadro abaixo você pode acompanhar alguns exemplos:
Expectativas e temores sobre a IA
A tecnologia pode parecer inicialmente atrativa, contudo, grande parte das pessoas demonstra preocupações referentes até onde ela pode ir sem uma supervisão rigorosa. É possível também notar certo temor de que os recursos que utilizam a IA substituam o trabalho humano. Percebe-se a substituição em muitos departamentos como os de atendimento ao cliente, em que cada vez mais as pessoas estão sendo substituídas por robôs que mostram soluções rápidas e práticas de recebimento, resolução e retorno de demandas. Também é possível notar essa substituição no diagnóstico de doenças e o desenvolvimento de medicamentos que são produzidos a partir do perfil específico de cada paciente.
Atualmente, já estão à venda programas com a funcionalidade de atender seus clientes, anotar a solicitação dos serviços da empresa e organização da demanda do dia. Esses recursos executam imediatamente e com precisão uma atividade que seria realizada por um recepcionista ou atendente. Ademais, têm a capacidade de enviar mensagens para diversos contatos simultaneamente, realizar relatórios dos contatos recebidos e leitura de dados financeiros.
Outras tecnologias disruptivas estão sendo desenvolvidas, como os carros autônomos apresentados pela Tesla, e o chip Neuralink que, de acordo com os desenvolvedores, vai monitorar em tempo real o corpo humano e detectar problemas de saúde.
Deep fake e racismo algoritmico
O termo "deep fake" designa as modificações faciais e vocais de pessoas reais para produção de conteúdos tendenciosos. Foram criados para parecerem realistas e são desenvolvidas com inteligência artificial. A partir de alguns dados armazenados sobre uma determinada pessoa, fica cada vez mais acessível criar as mesmas expressões e comportamentos inautênticos.
Um dos casos negativos desta faceta é a criação de conteúdos pornográficos. Casos assim já foram registrados, inclusive nas escolas. Jovens usam o recurso ilegal para atacar colegas, principalmente do sexo feminino. Em dezembro de 2023, ocorreu uma denúncia de alguns pais contra alunos de um colégio no Rio de Janeiro, acusados de manipular e compartilhar falsas fotos íntimas de alunas nas redes sociais usando recursos de deep fake.
Um importante e delicado ponto que tem sido alvo de discussão é a produção de fotos ou vídeos de pessoas que já faleceram. Recentemente, um comercial da Volkswagen recriou, com a ajuda da inteligência artificial, a figura da cantora Elis Regina, morta em 1982. A propaganda gerou controvérsia em vários aspectos, entre eles o “reavivamento” de indivíduos para finalidades comerciais. Ainda que o uso da imagem de Elis Regina tenha sido autorizado por familiares, o assunto também traz à tona em que medida tais reproduções podem acontecer sem autorização.

Outros casos foram identificados, como um site com a imagem do Doutor Drauzio Varella prozuida por inteligência artificial promovendo um medicamento para dores nas articulações.
Outra importante área afetada pelas deep fakes é a jornalística. Atualmente, o combate às fake news ocupa grande parte do tempo dos jornalistas. Notícias falsas são usadas principalmente para espalhar informações inverídicas, especialmente em períodos eleitorais para desmerecer ou dificultar a imagem de determinado candidato.

Em um caso recente, a deputada Renata Souza (PSOL) acusou uma plataforma de geração de imagem de racismo algoritimico. Com a utilização do Bing, ela pediu para que o programa criasse a ilustração de “uma mulher negra, de cabelos afro, com roupas de estampa africana num cenário de favela” e, seguidamente, a inteligência artificial produziu a imagem com as devidas descrições, no entanto, adicionou uma arma na mão da mulher. Este pode ser um mais um mecanismo para a disseminação do preconceito racial alimentado pela sociedade, que incorpora determinados estereótipos contra grupos historicamente marginalizados.
A IA nas Ciências Humanas
Por Marcela Kaylane e Nara Lícia
A visão geral dos professores que integram a docência do Instinto Interdisciplinar de Sociedade, Cultura e Artes (IISCA) da Universidade Federal do Cariri (UFCA) é de que a inteligência artificial ainda está em fase de desenvolvimento e análise. A unidade acadêmica é composta pelos cursos de Música, Jornalismo, Letras-Libras, Filosofia e Design, descritos no site do IISCA como uma constituição de “três eixos importantes no campo dos saberes, artes, humanidades e comunicação social, sem os quais perderíamos nossa característica fundamental de ser humano – a saber, a criação, a reflexão e a comunicação”.
No ano de 2001, o professor Tom Dwyer, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (IFCH/Unicamp) publicou um artigo intitulado "Inteligência Artificial, Tecnologias Informacionais e seus possíveis impactos sobre as Ciências Sociais", no qual analisou as possibilidades de transformação das Ciências Sociais, especificamente a Sociologia, a partir do uso das IAs Ciências Humanas. Segundo ele, uma das consequências de introduzir essas tecnologias seria uma alteração em potencial do ensino, da pesquisa, e da construção de teoria.
O acadêmico acredita que com o avanço da utilização das tecnologias, estaria acontecendo uma mudança na relação professor-aluno. Agora, os próprios discentes têm a possibilidade de acessar uma vasta quantidade de conteúdos acadêmicos livremente, sem o auxílio do professor. Ao se perguntar como seriam vistos os professores que escolhiam ensinar a partir de livros físicos e dados desatualizados, Tom Dwyer chegou à conclusão de que “a resposta era cruel - eles seriam vistos como preguiçosos, como palhaços ou como ideólogos defensores da anticiência e do obscurantismo!”.
A inteligência artificial se mostra como um grande auxiliar em situações em que humanos sentem certas limitações. Um exemplo disso é que quando se faz uma pesquisa manualmente, em grandes enciclopédias e bibliotecas físicas. O trabalho pode se tornar cansativo e demorado. Ao utilizar uma IA que automaticamente entrega ao usuário aquilo que ele está procurando a partir de palavras-chave, uma grande quantidade de esforço é dispensada e se torna possível consumir mais conteúdo em menos tempo. O sociólogo aponta que o problema começa quando o receptor dessas informações não está preparado para lidar com o conhecimento que lhe foi apresentado, tendendo a interpretar os dados de maneira pouco efetiva. Não é de grande serventia consumir tanto conteúdo quando ele não será utilizado de forma adequada.
Como as Ciências Humanas têm encarado o desafio tecnológico
Após tantos anos de evolução da tecnologia, inclusive das IAs, a forma de fazer pesquisas se tornou ainda mais automatizada. É como um campo aberto cheio de informações distintas e disponíveis para uso. O ChatGPT, como um exemplo agora bastante conhecido, é uma ferramenta que usa inteligência artificial, que pode, entre outras funções, gerar respostas relacionadas ao que foi pedido a partir de uma extensa base de dados. Entretanto, não há controle sobre a veracidade das informações ali exibidas, o que deixa o usuário vulnerável a consumir informações deturpadas ou inconsistentes. No campo jornalístico, uma área que atua diretamente com a difusão de informações de interesse público, esse problema pode gerar consequências indesejadas.

No início de dezembro de 2023, docentes do IISCA promoveram uma aula magna para debater o futuro das inteligências, reunindo professores de cursos distintos em uma perspectiva interdisciplinar. Entre os temas discutidos, esteve em pauta a euforia e o temor a respeito dessa tecnologia, seus impactos sociais e perspectivas futuras. Apesar das IAs serem um campo de estudo aberto, com muitas dúvidas e em fase de desenvolvimento, alguns professores destacam também os benefícios do avanço tecnlógico em suas áreas de atuação, como o caso do professor do curso de Jornalismo Diógenes de Luna. Segundo ele, é preciso entender o que é tecnologia e diferenciá-la de inovação e novidade.
O professor diz que há muitos pesquisadores dedicados ao estudo das inovações, analisando momentos históricos e buscando compreender as potencialidades de inteligências artificiais, estudando comportamentos dos bots no Twitter, vendo como ChatGPT é usado para a produção de notícias.
Diógenes afirma que a primeira aparição das IA no curso de jornalismo foi justamente na aula magna, onde pôde perceber a necessidade de propor metodologias de ensino de IAs no jornalismo para um maior entendimento das pessoas, e que essas metodologias serão aplicadas em suas próximas disciplinas.
"A gente precisa começar a entender as funcionalidades das inteligências artificiais no campo jornalístico para poder chegar às inovações"
Diógenes de Luna, professor do curso de Jornalismo da UFCA

De acordo com o docente, as pesquisas de mercado estão à frente das pesquisas acadêmicas, comparando o que foi apresentado no Congresso Brasileiro de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais (Coda.BR). No congresso havia jornalistas “que já estão no batente, produzindo na área mesmo”, tendo iniciativas independentes, produzindo conteúdo para grande mídia e utilizando a busca e a limpeza de análise de dados para sugerir pautas. Então, é de enorme utilidade a IAs na busca, limpeza e raspagem de dados no jornalismo.
Emanuel Marcondes Torquato, mestre e professor de Filosofia da UFCA, diz perceber muitos professores entusiasmados com o desenvolvimento dessas novas tecnologias e, por outro lado, com temor dos riscos que as inteligências artificiais podem representar para a humanidade e também em diversos campos, como no na ética ou da própria dominação econômica de dados.
O professor cita um exemplo mostrado durante a aula magna ocorrida na Universidade, em que um gerador de imagens (Prome.aí) recebeu a solicitação de fazer uma ilustração de Padre Cícero e a Santa Mãe das Dores. O resultado foi uma imagem incapaz de causar identificação por parte dos fiéis da região, já que a IA utiliza padrões próprios para gerar essas imagens. Fica claro um certo distanciamento afetivo - nesse caso, inexistente -, entre o resultado gerado e a imagem que se tem dos ícones religiosos regionais.

“ A grande novidade é que nós podemos interagir com essa tecnologia usando a linguagem natural, como a nossa fala. Há uma tentativa de naturalizar essa comunicação e tornar essa interação homem máquina mais fluida”
Emanuel Marcondes Torquato, professor do curso de Filosofia da UFCA
O docente destaca que a funcionalidade existe diante do apoio do que já foi criado pelo ser humano, ou seja, essa “inteligência artificial” é um futuro baseado nas informações disponíveis em maior quantidade produzida pelas pessoas, mas tudo isso feito de forma muito rápida. Segundo ele, é exatamente esse o perigo: as experiências humanas se tornarem reduzidas diante dessa tecnologia. Ele acrescenta que após a aula magna ficou claro que as inteligências artificiais ainda possuem muitas limitações, além de apresentar diversas incongruências em suas produções.

O professor finaliza ressaltando a importância do avanço tecnológico na produção do conhecimento, na realização de pesquisas, mas, para uma maior colaboração das IAs nas Ciências Humanas, é preciso propor um modelo correlacionado com outros aspectos das pesquisas acadêmicas para conseguir, de fato, ajudar o desenvolvimento das pesquisas.
Equipe de reportagem: Caio Gabriel, Douglas Aureliano, Gean Rodrigues, Letícia Costa, Marcela Kaylane, Nara Lícia
Design: Paulo Anaximandro
Coordenação e edição: Ivan Satuf
Reportagem produzida na disciplina Laboratório de Jornalismo Digital
Curso de Jornalismo
Universidade Federal do Cariri
Data de publicação: 22/12/2023
Contato: ivan.satuf@ufca.edu.br
